A PONTE
(O sonho começou)
Gteixeira
Finalmente aí vem ela, majestosa, pomposa, falta-lhes adjetivos maiúsculos para mostrar a sua verdadeira grandeza.
Esperada por todos com ansiedade como se fora a salvação da lavoura.
Temida por quantos desconhecidos, o dragão do capitalismo irá deixar marcas indeléveis. Soltando fogo pelas ventas devorará o que restar de hábitos e costumes de uma civilização ainda” in natura”.
Lá vem ela despontando, imponente, rasgando mares, cruzando espaço, fortaleza impoluta que ninguém será capaz de afrontá-la, nem poderia ser de outra forma.
A expectativa gerada em todos seus filhos “qual a mãe que não gostaria de parir este majestoso, gigantesco filho”, sabendo que ela já vem predestinada ao sucesso, das suas entranhas brotará mesa farta na casa dos pobres sonhadores, água jorrará em abundância, não mais será preciso migalhas, mangas temporão, abacate caindo ao chão, apodrecendo sem ninguém para consumi-lo, fartura em larga escala, a pobreza por aqui não terá vez, seremos emergentes, sim claro! estamos por sobre o mar, ricos e ex-pobres cruzarão o mesmo espaço, ela deixa livre a passagem para todos aqueles (as) que se permitirem atravessá-la.
Braços fortes e abertos a acolhê-los, peitos fartos a esperar que os seus rebentos desfrutem, mesmo por momentos fugaz, nas suas idas ou vindas, coisas que só uma mãe sabe como nutrí-los. Transeuntes em devaneio a mirar o pôr do sol, a banhar-se na luminosidade selênica, o infinito é bem mais perto, as nuvens são mais brancas, e o raiar do dia tornar-se-á deleite comum aos poucos escolhidos.
Pobreza nunca mais.
Aos poucos vamos nos acostumando à nova situação, o progresso chegará tal qual uma nave espacial aterrorizando, num planeta incógnito.
Que será de nossas crianças? Como fazer para não misturá-las aos novos posseiros. Temo pelas consequências que o progresso atrela. Drogas, baladas pesadas, gente branca mal educada, álcool, novos vícios. Prostituição, sumiço de crianças, estranheza e pavor estampado no semblante das criaturinhas mestiças acostumadas ao paradeiro, ao ócio rentável e a tranquilidade do lugar.
Ubaldo mostra-se preocupado esquecendo a necessidade de termos coisas melhores, o computador, a internet, o gps, e muitas tantas tralhas que irá nos beneficiar, necessidade de nos sentirmos vivos, integrados no sistema pulsante, interagindo com os afortunados. Somos gente e como tal “gente é pra brilhar não pra morrer de fome”, já dizia o poeta.
João, por aqui só aparece, de quando em vez, para desfrutar, devanear e usufruir deste paraíso, junto ao povo que dele lhe deu origem, “as tardes senta na rede, beberica seu melhor whisky, oferece uma cachaça ao vizinho, que folga em tê-lo como amigo e conterrâneo. Esquecendo as agruras que esse povo passa , a ponte para ele seria nefasta, afinal Copacabana lhe espera, cobertura, Ipanema, Leme, Leblon, sonhos realizados. sem desmerecimento.
Duro, Ponta de Areia, Ilha do medo, Gameleira.
Visto o fardão, na ilha sou povão
Ao raiar do dia seres humanos acorda na madrugada para o labutar diário, carregando seu fardo, munzuá, rede, balde cheio de crustáceos decápodes, coberto com folhas do mangue e outras ferramentas de trabalho, o ganha pão de cada dia.
Acordado estupefato, o ferry já atracando. Atônito o pescador levanta o rosto e vê bem a frente o cais. A cidade começa a despertar. Passa a mão pela cabeça, alisa o rosto queimado do sol, ergue-se e vai.
Assim como ele, muitos, outros e outras que ainda não conseguiram despertar.
O sonho acabou.
Gteixeira
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