COTIDIANO
1 gteixeira · Salinas da Margarida, BA
1/3/2010 · 9 · 10 COTIDIANO
“..Quando de repente o papagaio do motô ataca com um arrocha naquela voz anasalado, que tormento!
“O amor não acabou, não acabou o amor”, diz aos ouvintes ser um cantor apaixonado, de repente sai
“faz um jeitinho que ela gosta, arrocha, arrocha, arrocha” lá no fundo ouve-se um grito, ou gemido, uiiiii, lascívia pura num verdadeiro orgasmo musical,
levando ao delírio as pobres cabeças “non sense” que se regozijam ao chegar o fim do mês. Irão eles de cartão em punho buscar as migalhas oferecidas, formando filas dos desesperados a frente dos estabelecimentos bancários, lá vão eles, felizes, até quando...
- Que bom, acho que vai da pra comprar o novo cd de Tyrone Cigano.
- Ah besta! Você não ouviu o de Silvano Sales, tá melhor do que o de Nara. Retruca a amiga ao lado.
Sobrou pra Nara, que no túmulo se ouvisse, como diz os espiritualista, morto vive, ela provavelmente balançaria ao saber que seu nome era citado. Mas que nada, não era aquela Nara que pensamos, pois ali ela viraria gatinha, dessas deserdadas que nem em peixaria se vê.
E lá vão eles, enfrentando o buzu cheio do dia dia, satisfeitos com a benesse do Governo que os arrocha sem sentirem... e o arrocha acaba em terra, quando um desmarcado roça a bunda de D. Benedita, e ela berra,
- sai pra lá filho de anta, ta pensando que aqui é a bunda sua mãe, porra.!
Descendo ladeira abaixo, óbvio pois quem desce só desce, o nosso buzu para no ponto da feira de Água de Meninos, uma das maiores feiras livre do Nordeste, famosa por constar em romances de Jorge Amado, completando sua lotação. Escrito está bem a frente do motorista “23 passageiros sentados, 8 passageiros em pé “ porém nem sempre vale o que está escrito. Apinhados como sardinha em lata, sobe dentre eles uma senhora, devidamente paramentada com a camisa nas cores vermelha e preta, no peito em alto relevo orgulhosamente ela exibe como se fora vitrine de loja na Baixa dos Sapateiros, distintivo do E.C.Vitória, traz enrolado no papel jornal, embaixo do braço um galináceo rubro, de crista carnuda e asas curtas e longas, espécie preferida dos praticantes da religião do candomblé, fácil prevê que aquela ave seria sacrificada no ritual daquela seita. Ao seu lado um passageiro, bem vestido, de casaco branco, botões vermelhos, contrastando com a cor da beca, fazendo-se notar.
Eis que de repente.(sic) O galo estica o pescoço para tomar um ar e ver-se livre daquele odor forte, insuportável que sai debaixo daquelas gordas axilas, vê de imediato á sua frente três carôço de milho, bicou de imediato, arrancando o botão do paletó de nosso impecável passageiro.
Ai o bicho pegou... O bem vestido cavalheiro, tacou-lhe um bofete. O galo, sentiu a cabeça rodar, meio atônito, sem saber o que acontecia, não perdeu a pose. Cantou
- Cocorocó... Dona gorda de imediato retrucou.
- Tu vai ver sacana, esse galo é de Exu, vai me pagar, você vai cagar sangue.
E segue o buzu, conduzindo seus passageiros aos melancólicos destinos, cada um carregando consigo mazelas e dificuldades que, nem se dão conta de sua grandeza como seres humanos, em sua pequenez como gente, que habita em bairros periféricos de uma grande city latino-americana.
Adiante uma placa sinalizadora indica a próxima parada.
Suçuarana.
O cobra ataca... Quem vai ficar na Onça ? Numa alusão ao bairro que leva o nome de um carnívoro felino, que para sobreviver na selva, estraçalha sua vítimas com garras e dentes afiados, tal qual o sistema imposto aos menos favorecidos que habitam as grandes metrópoles, como nossos passantes, que não se da conta da sua verdadeira identidade.
E segue o buzu.
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